”Eu acho que as músicas são cada dia mais perecíveis”: Cintia Savoli comenta sobre Bruta-Flor e rap nacional

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”Eu acho que as músicas são cada dia mais perecíveis”: Cintia Savoli comenta sobre Bruta-Flor e rap nacional By Genius Brasil

Genius Brasil entrevista Cintia Savoli, uma das promissoras do rap feminino nacional



Com uma bagagem musical bastante eclética, a rapper brasiliense se destaca por suas contribuições para o rap nacional. Nessa entrevista, Cintia Savoli traz uma minuciosa releitura de grande parte da sua trajetória e da sua descoberta nas rimas. É também uma necessidade de fazer um desfecho significativo para seu trabalho de estreia solo, Bruta-Flor, que em 2018 completará 3 anos, dando surgimento a um novo trabalho.

O momento é outro, os sentimentos são outros, as vivências também e aí a música acompanha a evolução da alma.

Confira a entrevista completa, dada à equipe após passagem pelo interior da Bahia, abaixo:


Genius Brasil: como se deu sua trajetória de carreira, sua mudança de Brasília para Salvador e a sua descoberta como MC?

Eu comecei a fazer música desde criança, a minha mãe é pianista, então… Eu estudei música lá na minha infância. Mas quando eu comecei a ter uma identidade musical foi em 1998, quando eu formei com uns amigos uma banda de reggae chamada Arawaks, onde eu era fundadora junto com eles, tecladista e back vocal e compositora de muitas das letras que a gente cantava. Isso em 98, vai fazer vinte anos já, ano que vem. Sete… Oito anos depois disso… Eu conheci o rap e me apaixonei. Eu já conhecia, na verdade, mas eu ouvia mais reggae e tal. Aí fui me aprofundando. Fui convidada pra fazer um melódico com uma banda de rap, e a partir dali eu comecei a escrever os meus próprios raps, e desde então comecei a cantar em alguns grupos em Brasília, maioria com homens, mas eu já fiz parte de um grupo feminino. E quando me mudei pra Salvador eu dei uma paradinha, porque eu cheguei e não conhecia muita gente, mas logo eu comecei a conhecer as pessoas do rap, mostrei meu trabalho e aí a galera se amarrou, começou a me incentivar muito, e aí foi que gravei o meu primeiro CD.

Genius Brasil: Bruta-Flor é o nome do seu primeiro disco e você o cita no cypher “A bola da vez”, gravado pelo Rap Box. Você poderia nos contar um pouco sobre o que esse nome representa pra você?

Então, o Bruta Flor foi um nome que o produtor do meu primeiro CD deu pra mim, é um apelido, na verdade, porque tem tudo a ver com a minha personalidade porque eu sou muito bruta na rima, na minha mensagem e na forma de cantar o rap. Mas na vida eu sou bem amorosa, doce, então tem essa dualidade na minha personalidade: muito forte, muito firme, muito decidida, mas também muito doce. E aí o Bruta Flor parte disso.

Genius Brasil: qual critério de seleção você adotou para as participações no disco?

As participações foram parcerias com amigos, com as pessoas que estavam me incentivando a fazer o meu trabalho. Então, ali são todos amigos, pessoas que eu conheci e que eu admirava musicalmente, e que eu chamei para compôr o trabalho junto comigo. Eu queria que fosse, na verdade, um trabalho bem de amigos mesmo. Pessoas que estavam ali, passando na minha trajetória naquele momento, me dando todo incentivo, toda força, e foram essas as pessoas no momento. Então as chamei, eles aceitaram e ficou bonito.

Genius Brasil: quando e como surgiu essa necessidade de gravar um disco solo?

A necessidade de fazer um disco surgiu pelo fato de que eu vinha de um trabalho musical feito por muita gente. A minha primeira banda de reggae eu passei quase oito anos com eles, eram nove pessoas e eu era a única mulher. Então muitas mentes pensantes e muitas ideias mescladas. Era legal, mas era muito difícil. Muitas vezes a gente se batia nas ideias. E eu não podia também colocar toda a minha essência e verdade naquilo, porque eram muitas verdades misturadas.

Os outros grupos de raps os quais eu participei, foram a mesma coisa. Então a necessidade foi de fazer um trabalho que era completamente meu, que conseguisse expressar o momento, que era de revolta, de querer desabafar acerca das injustiças. Eu hoje por exemplo estou em outro momento na minha vida, mas aquele momento foi crucial, e o Bruta-Flor foi um desabafo muito importante pra minha vida pessoal, pra minha existência. Esse CD mudou minha vida assim, de fato, mudou minha vida, mudou minha forma de ver o mundo, mudou a forma de eu me ver dentro daquele trabalho que eu estava executando, né? Então foi muito especial.

Genius Brasil: como você avalia a cena do rap nacional e regional , e quais suas metas enquanto MC dentro desse contexto?

Sobre as minhas percepções do rap nacional e regional, Bahia e Nordeste, eu tenho muitas e elas vão mudando. Eu acho que o cenário hoje é um pouco efêmero, eu acho que as músicas são cada dia mais perecíveis, o que me incomoda um pouco, essa coisa de toda semana um bilhão de lançamentos e na próxima semana essas músicas já não são mais nada e você já tá procurando os próximos lançamentos. Eu ouço muita coisa e eu sempre procuro ouvir muito repetidamente as que me marcam, e que me tocam de alguma forma, eu acho que música serve pra isso. Eu nunca fui de seguir tendências e essas coisas, e eu acho que hoje o foco tá muito pautado nisso. E eu não acredito muito nessa divisão de rap nacional e regional, acho que rap é o rap, e se é bem feito independe de que lugar ele vem.

E as minhas metas enquanto MC dentro desse contexto, é lançar meu próximo CD e fazê-lo com maior carinho, amor, dedicação e verdade possível, e deixar que as pessoas façam esse feedback. Eu espero que as pessoas abracem, que se sintam representadas com aquilo que eu estou fazendo de novo, e claro, eu quero muito ter minha sobrevivência pautada na música. Na verdade eu já tenho, porque eu nunca fiz outra coisa além de música. Mas claro que a gente quer crescer, a gente quer melhorar de vida, então a minha meta é essa mesmo, simples, coisa simples, eu não penso em me tornar milionária, nada disso não. Eu só quero viver bem, ter pessoas boas por perto e fazer o que eu amo, que é música.

Genius Brasil: sobre o seu projeto “Rima Mina”, nos conte como se deu a construção dele, junto a Mirapotira. Quais são os objetivos do projeto?

O projeto Rima Mina começou em 2015, como proposta de Mirapotira, ela que me convidou pra gente dar oficina de rima para mulheres. A gente sabia que tinha pouquíssimas mulheres fazendo rap em Salvador, então a gente ficou afim de dar uma força, uma vez que nós não tivemos essa força na nossa época. Nós passamos por muitos perrengues, sabíamos o quanto era difícil ser mulher nessa cena. Abrimos esse projeto numa ONG que cedeu o espaço pra gente, na ladeira da Preguiça, no centro Salvador, e a gente foi, era sem fins lucrativos. Nós fortalecemos muitas, muitas mulheres. A princípio a intenção era essa, mas o projeto cresceu muito, o Brasil inteiro ficou sabendo e começamos a ser convidadas pra um monte de coisas. Acabou que o foco maior hoje são os presídios, a princípio feminino, mas a gente também faz oficina de rima e shows em presídios masculinos. Isso tem empoderado muita gente e ajudado muitas pessoas, o que dá muito prazer pra nós em ver que esse fruto é real. E como nossa parceria deu muito certo, nós estamos escrevendo músicas para trabalhar juntas em um CD, e continuar trabalho também com espetáculos de música com essa dupla que é o Rima Mina, eu e Mirapotira, além das oficinas.

Genius Brasil: quais figuras da música você carrega em sua bagagem musical?

Minhas referências musicais são muito do samba, do jazz, do blues, da bossa nova, do reggae, do ragga. Cartola, Adoniran Barbosa, no jazz e blues a Amy Winehouse, Ella Fitsgerald, Nina Simone. Elis Regina, Chico Buarque, essa galera da música popular brasileira que gosto muito, sempre ouvi minha vida inteira, cresci ouvindo. No reggae: Bob, Rita Marley, Israel Vibration, Gladiators. E no rap, meus amigos, velho. As pessoas que estão do meu lado me incentivam e me inspiram muito, são referências pra mim. Mirapotira, Dina Di pra mim… É sem palavras também.

Genius Brasil: esse ano, você deu início à turnê “Eu Tava Lá”, junto aos rappers Lívia Cruz e Vandal, pelo Nordeste. Como se deu a escolha das parcerias, o nome, e os roteiros das cidades?

A turnê “Eu Tava Lá” foi uma ideia minha. Eu tenho uma afinidade e uma irmandade muito grande com a Lívia Cruz. A gente é amiga de profissão e amiga íntima mesmo, de vida. A gente tem muita vontade de trabalhar juntas, a gente quer gravar CD juntas, a gente tem muitos planos. Mas eu tenho uma produtora que trabalha comigo, que é Lane Palanca, e eu pedi a ela que começasse a fazer alguns contatos porque eu queria fazer uma turnê no Nordeste, e eu queria que fosse com Lívia. E a gente ia pensar uma outra parceria, então com Vandal a gente fez em Salvador e Feira de Santana, e em Aracaju foi só eu e ela. A gente ainda pretende subir algumas outras cidades do Nordeste. A nossa produtora tá fazendo contato com as pessoas, e depois que terminar a turnê Nordeste a gente quer fazer uma turnê fora, em outros locais também… Espírito Santo, que têm convidado muito a gente e tal, e no Sul.

O nome “Eu Tava Lá” vem da música de Lívia, e que tem tudo a ver, porque nós somos MC’s muito antigas e que presenciamos muitas coisas da história, e que normalmente as mulheres são esquecidas, então o nome também faz alusão às pessoas que comparecem nos eventos depois poderem dizer “eu tava lá”, isso pra gente é muito importante, que as pessoas se acheguem. É sensacional trabalhar com a minha irmã, é maravilhoso, porque a gente se dá muito bem, a gente se diverte muito fazendo o que gosta, e a gente tem a mesma seriedade de levar essa mensagem também, então, super lindo, muito agradável.

Genius Brasil: sobre o público, você nota alguma diferença de recepção desde o início de sua carreira até agora?

Sobre a diferença de recepção do público, a gente sente sim. Em alguns sentidos. Eu fui muito abraçada pela galera que gosta de ouvir rap gangster, no princípio. Eu canto e cantava um estilo que é bem pesado, esse rap estilo antigo, old school. Mas depois eu comecei a fazer parcerias com algumas pessoas mais conhecidas também, aí eu fiz o RapBox, e o público, que era mais jovem… era de quem tava chegando agora e começando a ouvir rap agora, e começaram a conhecer meu trabalho e foi quando eu tive uma ascensão um pouco maior, a nível nacional, porque antes era a galera mais de Brasília e do Nordeste que me ouviam. E depois dessas possibilidades e oportunidades, abriu-se um leque pro público. E eu acredito que esse leque vai ser um pouco mais aberto depois que eu lançar o meu novo CD, porque vem músicas diferenciadas.

Genius Brasil: o que poderia ser antecipado sobre a produção deste novo disco, previsto para 2018?

O novo CD está sendo produzido a mais ou menos um ano, e ele é bem diferente do primeiro porque tudo o que faço é visceral. O momento é outro, os sentimentos são outros, as vivências também e aí a música acompanha a evolução da alma. Tive o grande prazer de conhecer e me aproximar do músico e produtor Hugo Rodrigues, que tá produzindo todos os instrumentais do novo disco junto comigo. Ele é genial e estamos fazendo os instrumentais em parceria. Ele tem uma concepção muito bem pensada e tem uma equipe muito profissional trabalhando em cada detalhe pra fazer uma obra de excelência. Estamos trabalhando muito e o lançamento se Deus quiser é pro início de 2018.

Genius Brasil: qual mensagem você deixa às mulheres que estão se descobrindo no rap atualmente?

Eu aconselho que elas tenham muita cautela, que tudo tem seu tempo. Eu vejo as meninas que tão chegando muito eufóricas para lançar, gravar, ficar famosa, ser reconhecida, e antigamente era coisa que a gente nem pensava. A gente fazia isso com muita garra e amor e as consequências e frutos foram vindo com o tempo, o reconhecimento e tal. Então que tenham calma, que saibam experimentar cada etapa de forma muito especial, muito cuidado, e podem contar com a gente, com as tia, para o que precisarem, porque a gente tá aqui pra isso também, pra abrir o espaço que não abriram pra nós lá e a gente teve que meter o pé na porta. Mas que agora pra elas, a gente espera que seja mais fácil, porque a porta tá um pouquinho mais aberta, nem que seja aberta só por nós mulheres.



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